Setor madeireiro do Paraná sofre com taxações internacionais, com grande impacto em Guarapuava
Medidas internacionais, incluindo o anti-dumping da Europa, afetam exportações e colocam empresas e trabalhadores em alerta, mas Cooperativa Agrária se mantém protegida
22/08/2025 23h52
por Andrea A. Alves
Empresas paranaenses já sentem os efeitos da crise internacional: a unidade da Millpar em Quedas do Iguaçu precisou fechar suas portas, enquanto a indústria de Bituruna (Randa, que concedeu férias coletivas para seus 800 funcionários) segue em operação, alertando para o risco de cidades inteiras se tornarem “fantasmas”.
O setor madeireiro é um dos principais motores da economia do Paraná, gerando milhares de empregos diretos e indiretos e representando parcela significativa das exportações do estado.
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), medidas paliativas das empresas não serão suficientes para conter os efeitos das novas tarifas e barreiras comerciais. Somente em 2024, o setor madeireiro exportou US$ 1,6 bilhão para o mercado norte-americano, e a nova taxação ameaça cerca de 180 mil empregos diretos em todo o país.
A combinação da taxação de 50% dos Estados Unidos e barreiras comerciais, incluindo o anti-dumping da União Europeia, colocou o setor em alerta. Os efeitos já se refletem em queda nas exportações, férias coletivas em algumas empresas e a perspectiva de cortes no quadro de funcionários.

Panorama das exportações de Guarapuava
Guarapuava segue como referência nacional, abrigando empresas estratégicas que atendem mercados interno e externo. Em 2023, o valor total das exportações do município ultrapassou US$ 302 milhões, com destaque para resíduos de óleo de soja e produtos de madeira, que representaram mais de 55% do total.
No primeiro semestre de 2025, os Estados Unidos foram o principal destino das exportações do município, com 43,1% do total — cerca de US$ 39,5 milhões, principalmente em placas e molduras de madeira.

Empresas estratégicas sob pressão
As empresas guarapuavanas que mais se destacam no setor madeireiro — e que consequentemente estão sendo as mais prejudicadas — são Millpar, Repinho, Carli Plac e Aoi-Yama Compensados.
A Millpar, uma das maiores indústrias madeireiras do país, anunciou o fechamento de sua unidade em Quedas do Iguaçu e a readequação do quadro de colaboradores na planta principal, em Guarapuava. Segundo a empresa, os Estados Unidos são o principal destino das exportações de produtos madeireiros. Com a nova tarifa, a competitividade foi reduzida drasticamente, comprometendo vendas e paralisando negociações no setor.
Diante do cenário, a Millpar inicialmente concedeu férias coletivas aos funcionários, mas a continuidade da crise tornou inevitável a suspensão das operações em Quedas do Iguaçu e a demissão de trabalhadores. Em Guarapuava, as atividades continuam, mas também com redução no quadro de colaboradores.
> “Estamos tomando decisões extremamente difíceis, mas necessárias neste momento para manter a sustentabilidade do negócio e preservar parte significativa dos postos de trabalho”, afirmou Ettore Giacomet Basile, CEO da Millpar.

A empresa informou que, além dos direitos trabalhistas, ofereceu benefícios extras aos desligados, como auxílio-alimentação temporário, apoio psicológico e suporte profissional para recolocação no mercado.

Edson Hideki Ono (foto), diretor da Fiep, reforça o impacto da crise nas indústrias de Guarapuava:
> “A Millpar é uma das mais prejudicadas, pois o mercado deles é 100% norte-americano. A Repinho também focava nesse mercado, inclusive com certificações específicas. A Carli Plac enfrenta reflexos semelhantes, já que a demanda global se concentra em poucos mercados, derrubando preços e comprometendo toda a cadeia.”
Ele também comenta sobre os desafios gerais do setor frente às medidas do governo e à falta de mercados alternativos. Segundo Edson, apesar dos incentivos lançados pelo governo, as medidas são paliativas e não resolvem os problemas de comercialização do produto brasileiro, que dependem de credibilidade e confiança nos mercados internacionais. Com a queda de pedidos na Europa e a saturação de outros mercados como Caribe e México, empresas locais enfrentam cancelamentos e dificuldade para expandir. A situação coloca cidades importantes do setor, como Bituruna, em risco econômico, enquanto Santa Catarina também sofre com problemas no setor de móveis.
> “O governo está lançando vários incentivos, que são ações paliativas, mas que não resolvem nosso problema no mercado de comercialização. Hoje só houve cancelamentos de pedidos e não há procura por novos pedidos. O mercado está muito oscilante, sem perspectiva de um futuro próximo de bonança de vendas. O governo precisa tomar decisões rápidas para que possamos voltar a entrar no mercado norte-americano.”
Quando fala de sua própria empresa, Edson Ono é identificado como diretor da Aoi-Yama Compensados (vídeo acima):
> “Nosso produto tinha praticamente 80% do mercado na Europa e 20% nos Estados Unidos até maio deste ano. Com o anti-dumping europeu, migramos para os EUA. Agora, com a nova taxação, todo esse esforço foi comprometido. Hoje, nosso mercado está praticamente 80 a 90% nos Estados Unidos.”
Repinho: expansão e desafios
A Repinho, fundada em 1991, é uma das maiores empresas do setor madeireiro de Guarapuava, especializada na produção de compensados e painéis de madeira. A empresa possui uma unidade fabril em construção às margens da PR-466, com previsão de gerar mais de 1.800 empregos diretos e indiretos.

A imposição de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos tem afetado significativamente empresas como a Repinho. Embora a empresa possua maior diversificação de mercados, com exportações para países da Europa Ocidental e do Leste, como Alemanha, Bélgica, Itália e República Tcheca, a maior parte da madeira serrada, molduras e painéis produzidos na região ainda é destinada aos EUA. Além disso, a dependência do mercado norte-americano expõe a empresa a riscos em caso de renegociação ou cancelamento de contratos, devido à perda de competitividade gerada pelo aumento das tarifas.
Impacto nos trabalhadores
O impacto direto nos trabalhadores atinge todo o setor:

> “Muitas empresas, principalmente as voltadas ao mercado norte-americano, já estão dando férias coletivas à espera de uma solução do governo federal. Mas, como não há perspectiva de redução dessa taxa, várias vão iniciar demissões a partir de setembro. Estamos falando de empresas que têm de 700 a 1.200 funcionários, que provavelmente farão cortes em massa no próximo mês”, alerta Edson Ono.
Posição do poder público

O secretário de Desenvolvimento Econômico de Guarapuava, Júlio C. Pacheco Agner (foto), detalha as ações da prefeitura diante da crise no setor madeireiro. Segundo ele, foi criado um comitê de crise para trabalhar saídas, com apoio do governo americano por meio de entidades representativas. A prefeitura também está avaliando ampliar incentivos e garantir a realocação de mão de obra qualificada. Além disso, há mobilização política em Washington para reabrir o diálogo comercial.
> “Estamos atentos e trabalhando para apoiar o setor madeireiro, que é essencial para a economia local. O momento exige diálogo constante com o governo federal e com a iniciativa privada para buscarmos alternativas que mantenham a competitividade internacional das nossas empresas. Guarapuava tem potencial para atrair novos investimentos e ampliar suas parcerias comerciais. A prefeitura está aberta a construir soluções junto com o setor produtivo, para que possamos preservar empregos e garantir a sustentabilidade econômica da região.”

O presidente do SindusMadeira (Sindicato das Indústrias da Madeira de Guarapuava), Clóvis Turmina (foto), reforça a gravidade da situação e a necessidade de união do setor:
> “Estamos vivendo um momento crítico, em que nossas indústrias precisam se readequar para sobreviver. O SindusMadeira está ao lado de cada uma de suas associadas, defendendo políticas públicas eficazes e oferecendo suporte para que possamos preservar empregos e fortalecer nossa economia. Acreditamos na resiliência e na capacidade inovadora de nossas empresas. Com união e ações estratégicas, vamos transformar as adversidades em oportunidades para reposicionar Guarapuava e região no cenário nacional e internacional.”
Cooperativa Agrária: alento em meio à crise
A Cooperativa Agrária Agroindustrial, fundada em 1951 e sediada em Guarapuava, é uma das maiores do país, com receita anual de R$ 4,48 bilhões e mais de 12 mil produtores associados. Atua em grãos como soja, milho, trigo e cevada, além de malte, farinhas, óleos, nutrição animal, sementes e processados de milho.

Segundo a assessoria de imprensa, nenhuma das recentes taxações impostas pelos Estados Unidos afetou os produtos da Agrária, já que toda a exportação é destinada à Europa. A cooperativa também investe na expansão da produção local, como a nova maltaria em Guarapuava, reforçando sua importância econômica e a geração de empregos na região.
Créditos fotos: Rodrigo Disnei; arquivo Agora Notícias; divulgação empresas.
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